Ao mestre das Paineiras
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Ao mestre das Paineiras - Sr. José Nakamura de Uberlândia

Uma justa homenagem ao Sr. José Nakamura de Uberlândia - Minas Gerais/Brasil.
Em 1927, o menino José , com cerca de 10 anos de idade brincava como os demais garotos de sua idade, época em que se socava arroz no pilão, se tirava água de poços, usavam lamparina para iluminar as casas durante a noite e até alguns tecidos eram fiados no tear manual, o principal meio de comunicação eram os rádios (com válvulas), uma época quase totalmente agrícola e de pouca tecnologia.
O pequeno José foi bem disciplinado por seu pai e incentivado pela arte praticada por ele, Jose plantou suas primeiras sementes da nossa exuberante paineira.
O pai já cultivava alguns bonsai, tradição de família, e assim o menino José crescia juntamente com suas primeiras mudas de nossas árvores nativas e outras exóticas trazidas do Japão pela família.
O pai pacientemente o ensinava a cada estacação, as necessidades de cada árvore.
Como todo garoto, José foi um adolescente, um jovem, posteriormente um jovem pai de família, trabalhando em pequena construtora e nos finais de tarde e fins de semana dedicava algumas horas aos seus bonsai. Em 1967, apaixonou-se também por mini antúrios, os quais conseguiu reduzir para 1/4 de seus tamanhos naturais.
Em 1997, tive a oportunidade de ver estas pequenas jóias cultivadas em vasos do tamanho de um dedal. Neste ano fiz minha primeira visita a sua casa, foi neste dia em que Demilson seu filho me mostrou as fotos do ano de 1967 com estas maravilhas.
Na década de 70, Sr. José começou a trabalhar com o estilo raízes agarradas à rocha (sekijoju), uma de suas plantas prediletas era a malpighia.
Entre pinheiros negros (um deles centenário), azaléias, juníperos, jabuticabeiras etc, o que mais me intrigava e chamava atenção eram seus bonsai de paineiras, algumas com a base de cerca de 30cm de largura, alguns troncos retorcidos, envelhecidas pelas décadas de cultivo meticuloso.
Por décadas os bonsai faziam parte do patrimônio da família e só foram revelados ao público nos anos 90 durante uma festividade do aniversário da cidade. Sr. José continuou sendo o mesmo homem simples e humilde, mesmo após seus bonsai terem causado um grande impacto nas pessoas.
Ele foi sem dúvida, o primeiro a cultivar bonsai de paineiras no Brasil, cerca de 80 anos atrás.
Eu soube de seus bonsai através do amigo Silvio que ao visitar parentes na cidade, descobriu o Sr. José.
Durante uma visita, o Sr. José me ensinou uma grande lição de vida, que jamais esqueço e hoje faz parte da minha filosofia de vida. Ele me disse o seguinte: "Helenir, enquanto mais você ensina, mais você aprende!, nunca guarde o conhecimento para si e nunca se envergonhe de perguntar a algúem algo que você ainda não sabe!".
Naquele dia, ainda ao chegar na cidade, seu filho Demilson me aguardava, cancelou até alguns compromissos na construtora e cordialmente me pagou um belo almoço em um restaurante da cidade.
O que também me impressionou muito além dos belos bonsai, foi uma pequena coleção de troncos, raízes retorcidas, sementes e pedras, pertencentes ao Sr. José.
Infelizmente, Sr. José Nakamura, nos deixou no dia 14 de julho de 2008. Entre nós ficou o profundo sentimento pela partida de um grande e humilde mestre de bonsai no Brasil. Herdamos também um grande legado para esta e as próximas gerações.
Lição em que aprendi com o mestre, o que deve crescer é a arte e a troca de conhecimentos entre os bonsaistas, o homem é apenas um elemento que molda as miniaturas dentro do tempo e do espaço. Esta é uma pequena e simples homenagem que prestamos ao grande mestre Sr. José Nakamura.
Autor: Helenir Candido
Clube do Bonsai de Ribeirão Preto


