Uma pequena crônica II
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Voltava para casa depois de um cansativo dia de trabalho, um homem comum. Enquanto caminhava ia observando os arredores. Fazia diariamente o mesmo caminho, já o conhecendo como a palma de sua mão, entretanto naquele dia deu-se um imprevisto, por uma interdição, teve que mudar seu itinerário habitual. Entrou então por ruas desconhecidas, pousou os olhos sobre novas paisagens e admirou-se com uma pequenina casa, escondida entre árvores enormes
Notou então que, defronte a casa e sobre algumas rochas, haviam pequenos vasos que acomodavam em seus bojos, o que pareciam ser pequenas árvorezinhas. Sua curiosidade e a já proximidade de sua casa, fizeram com que parasse de caminhar. Concentrando sua atenção, viu uma velha mulher que caminhava lentamente, indo de vaso em vaso e acariciando docemente as minúsculas árvores ali contidas. Intrigado, resolveu bater palmas e perguntar a vetusta senhora se seus olhos o haviam enganado, afinal não existiam árvores tão pequenas.
Ao soarem as palmas, a mulher que até então só havia sido vista de costas, virou-se e caminhou para a cerca que circundava a casinha. Era uma anciã japonesa e seu andar tinha uma estranha graça. Chegando a cerca, cumprimentou o homem com um leve movimento de cabeça e sorrindo desejou-lhe um bom dia. O homem devolveu-lhe o cumprimento e explicou que estava passando, que viu suas árvorezinhas, e encantado, decidiu perguntar como era possível que elas ficassem assim tão perfeitamente idênticas as de tamanho natural, e mais, como era possível que coubessem em vasos tão rasos?
A anciã novamente sorriu e convidou-o a entrar. Disse ao homem tratarem-se de bonsais, miniaturizações artísticas de árvores, mas que para chegarem a formas tão perfeitas, eram necessário muitos anos de trabalho e dedicação.
Ele ficou maravilhado. Reconheceu nas árvorezinhas espécies frutíferas, que ele próprio cultivava em sua casa, como jabuticabeiras e pitangueiras, e parabenizou a mulher por tamanha beleza. Sentindo na idosa senhora uma receptividade inesperada, resolveu avançar um pouco mais e disse-lhe que a tinha visto acariciar seus bonsais de maneira amorosa, e se havia nesse gesto alguma técnica especial que a ajuda-se no seu cultivo.
A mulher riu-se e disse-lhe que aquele gesto nada tinha de técnica de cultivo.
Então por quê? Perguntou o homem.
O semblante da senhora mudou, o riso foi-se, embora houvesse ainda simpatia em seu olhar, e ela respondeu-lhe: "Meu senhor, aquele primeiro bonsai que me viste acariciar, já bastante velho e retorcido, é um Pinheiro negro e foi feito por meu pai, morto a cinquenta anos, e a ele eu peço a benção todos os dias.
O segundo, também bastante velho, trata-se de uma Glicínia, e foi feito pelo meu falecido marido, e a ele diariamente, declaro o meu eterno amor.
O terceiro, que é uma Azaléia, vem sendo por mim cultivado nos últimos quarenta anos, e todos os dias dele me despeço, pois temo por não vir a acordar no dia seguinte, visto que já tenho quase cem anos e meu tempo está chegando ao fim." Diante da resposta, o homem emocionado, encheu-se de respeito por aquela desconhecida e, correndo os olhos sobre todas aquelas maravilhas, perguntou a mulher sobre seus filhos ou netos, se não se interessavam por dar continuidade aquela linda tradição. Respondeu a anciã que não os tinha.
O homem estupefato, disse-lhe sentir-se muito triste em saber que quando chegasse à mulher o fim de seus dias, tudo aquilo se perderia. Balançando a cabeça negativamente, a senhora voltou a sorrir e respondeu-lhe: "Meu senhor fique tranquilo, nada se perderá.
Quando chegar o inverno de meus dias, o senhor cuidará delas por mim, tenho certeza disso, pois já esperava a sua visita a alguns anos. Veja aquele jovem bonsai ali, trata-se de uma Jabuticabeira, tem apenas 5 anos e foi produzida de uma semente vinda da árvore de sua casa!"
Autor: Ednilson Martiniano


